Milhares de espanhóis saíram às ruas em várias cidades do país para manifestar solidariedade com Ceuta, território espanhol situado no Norte de África, numa altura em que a entrada em massa de migrantes continua a provocar tensão política e diplomática entre Madrid e Rabat.
Ceuta é uma cidade autónoma espanhola localizada na costa norte de África, junto à fronteira com Marrocos. Embora esteja geograficamente no continente africano, pertence a Espanha e, por essa razão, constitui uma das fronteiras externas da União Europeia. A sua localização torna qualquer crise no território particularmente sensível para Espanha e para as relações com o país vizinho.
As manifestações ocorreram a 2 de Setembro, data assinalada como Dia de Ceuta, e reuniram cidadãos de diferentes sensibilidades políticas. Em várias cidades, os participantes expressaram apoio à população de Ceuta e exigiram respostas do Governo de Pedro Sánchez perante uma crise que permanece sem solução definitiva.
Segundo o jornal espanhol ABC, 72 presidentes de câmaras municipais ligados ao Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) participaram em actos de apoio a Ceuta, apesar das reservas manifestadas pela direcção nacional do partido.
Em Madrid, o presidente da Câmara, José Luis Martínez-Almeida, do Partido Popular (PP), apelou à participação dos madrilenos numa concentração na Praça de Cibeles. Após as restrições anunciadas pelo Governo a algumas manifestações, Almeida afirmou que “Madrid não vai ficar calada”.
A presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, também manifestou apoio à população de Ceuta e criticou a posição do Executivo central.
No centro da crise está a entrada em massa de migrantes em Ceuta no final de Julho. A dimensão do episódio e as circunstâncias em que ocorreu levantaram suspeitas sobre uma eventual organização prévia.
Um relatório atribuído ao Centro Nacional de Imigração e Fronteiras (CENIF), citado pela France 24, terá sido entregue ao Tribunal Nacional espanhol no âmbito da investigação. Segundo a publicação, o documento sustenta que o movimento não terá sido espontâneo e aponta para um possível processo organizado com o objectivo de provocar o colapso do sistema fronteiriço espanhol.
As mesmas informações levantam suspeitas sobre o eventual envolvimento de elementos das forças de segurança marroquinas na condução dos grupos em direcção ao território espanhol. As alegações estão, contudo, sob investigação e não constituem uma confirmação judicial da responsabilidade de Marrocos.
Perante o Congresso dos Deputados, Pedro Sánchez reconheceu a existência de suspeitas sobre um eventual envolvimento marroquino, mas afirmou que não existem “provas sólidas” suficientes para responsabilizar Rabat. O primeiro-ministro defendeu uma resposta baseada no “rigor e prudência”.
A oposição espanhola contesta essa posição. O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, acusou o Governo de ter sido avisado sobre a operação e questionou a resposta de Sánchez perante a actuação das autoridades marroquinas.
A crise também abriu uma frente de tensão institucional depois de declarações de Sánchez sobre as deslocações do Rei Felipe VI a Ceuta e Melilla, territórios espanhóis no Norte de África.
Mais de um mês depois da entrada em massa de migrantes, Ceuta continua no centro do debate político espanhol. O episódio deixou de ser apenas uma questão migratória e passou a envolver segurança fronteiriça, relações diplomáticas com Marrocos, responsabilidade governamental e soberania territorial.
Nas ruas espanholas, a mensagem foi de apoio à população de Ceuta: “Ceuta não se vende, Ceuta defende-se”.


