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    Entre a fé, a exclusão e as armas: porque África continua a produzir insurgências

    Por Dionísio António

    Sempre que uma nova insurgência surge em África, a primeira explicação apresentada é quase sempre a mesma: terrorismo islâmico. A narrativa é simples, rápida e politicamente conveniente. Porém, a realidade é muito mais complexa.

    Nenhum grupo extremista nasce apenas da religião. As organizações violentas utilizam argumentos religiosos como instrumento de mobilização, mas prosperam sobretudo onde o Estado fracassou em cumprir as suas funções mais básicas. O verdadeiro combustível das insurgências continua a ser a pobreza, a exclusão social, a corrupção, a ausência de justiça e a falta de perspectivas para milhões de jovens africanos.

    Moçambique tornou-se um exemplo doloroso dessa realidade. Cabo Delgado possui uma das maiores reservas de gás natural do continente, mas muitas das comunidades locais continuam sem acesso a serviços públicos essenciais. Enquanto empresas internacionais movimentam milhares de milhões de dólares, uma parte significativa da população permanece sem emprego digno, educação de qualidade ou participação efectiva nos benefícios da exploração dos recursos naturais.

    É precisamente nesse vazio que surgem os grupos armados. Eles oferecem aquilo que o Estado muitas vezes não conseguiu proporcionar: identidade, pertença, rendimento, protecção ou simplesmente a ilusão de que existe um futuro diferente.

    A resposta internacional concentrou-se quase exclusivamente na dimensão militar. Ruanda, SADC e outros parceiros contribuíram para conter parte da violência, mas nenhuma força estrangeira conseguirá eliminar um problema cuja origem está nas estruturas económicas, sociais e políticas. Pode derrotar combatentes, mas dificilmente eliminará as condições que permitem o surgimento de novos recrutas.

    Outro aspecto merece reflexão. África continua a transformar-se num palco de competição entre grandes potências. A luta contra o terrorismo mistura-se frequentemente com interesses ligados ao gás, aos minerais estratégicos, às rotas comerciais e à influência geopolítica. Em muitos casos, a segurança passa a servir interesses internacionais antes de responder às necessidades concretas das populações locais.

    E Angola?

    Embora o país não enfrente actualmente uma insurgência semelhante à de Cabo Delgado, seria um erro acreditar que está imune aos factores que alimentam o extremismo violento. O desemprego juvenil, a pobreza persistente, as desigualdades regionais, a corrupção e a desconfiança em relação às instituições constituem vulnerabilidades que exigem atenção permanente.

    Nos últimos anos, observa-se também um crescimento da diversidade religiosa em Angola, incluindo comunidades muçulmanas. Esse crescimento, por si só, não representa qualquer ameaça. O Islão é uma das grandes religiões do mundo e a esmagadora maioria dos seus fiéis rejeita o terrorismo e qualquer forma de violência. Associar automaticamente o aumento do número de muçulmanos ao extremismo seria um erro grave, injusto e sem fundamento.

    O verdadeiro desafio para Angola consiste em prevenir processos de radicalização violenta, independentemente da sua motivação religiosa, política ou ideológica. Isso exige serviços de inteligência eficazes, políticas públicas inclusivas, educação de qualidade, criação de emprego, fortalecimento das instituições e diálogo constante com todas as comunidades religiosas.

    A radicalização não começa com armas. Começa quando um jovem deixa de acreditar que existe um lugar para si na sociedade.

    Os governos africanos precisam de compreender que segurança não se resume ao reforço das Forças Armadas. Segurança significa também escolas, hospitais, justiça imparcial, emprego, transparência e oportunidades. Onde esses pilares existem, o extremismo encontra muito menos espaço para crescer.

    África continuará a enfrentar insurgências enquanto insistir em combater apenas os seus sintomas e ignorar as suas causas. As balas podem silenciar uma guerra durante algum tempo. Mas apenas o desenvolvimento, a inclusão e a boa governação conseguem impedir que a próxima guerra comece.

    Dionísio António
    Jornalista

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